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12/01/2004 23:25
Cuide bem do seu baiacu
Não é o Nemo. Eu nem sei se o Nemo é o azul ou o laranja. Continue procurando, se quiser encontrá-lo. E esse é meu último imperativo nesse texto. Pensei em fazer um texto de ano novo repleto de desejos e imperativos: seja feliz, faça amor, não faça a guerra, beba mais água, coma mais pepinos, leia o Sem Pauta, saia da frente do computador e dê uma caminhada, ouça seu coração, ouça seu amor, ouça Rap, use filtro solar, dance, use Havaianas, assista Tangos e Tragédias, não me inveje, trabalhe, ame tudo o que é seu, preserve o meio ambiente, lute pela paz, nade... Muitos, mas fico apenas com o do título, pra preservar sua saúde ovariana (ou algo análogo, conforme o caso).
O baiacu, como haverão de saber os amáveis leitores, é o nome popular de alguns peixes aqui no Brasil (ou pelo menos em Itaparica; Itaparica é Brasil), geralmente da desagradável família dos tetradontídeos. Para ser mais claro, trata-se de um vulgar actinopterígio, teleósteo, da ordem dos plectógnatos, da já mencionada família tetradontídea e, julgo eu, na maior parte dos casos, é um exemplar da espécie em que Lineu tacou o nome de Lagocephalus laevigatus. Não sei por quê. Lineu tinha dessas coisas. Qualquer um que já viu um baiacu percebe logo que ele não pode ser um Lagocephalus e muito menos um laevígatus.
João Ubaldo Ribeiro, Arte e Ciência de Roubar Galinha, Editora Nova Fronteira - Rio de Janeiro, 1998, p. 45. Os Comedores de Baiacu.
(Que covardia! O João Ubaldo me furou nesse papo de baiacu...)
Não lembro se o baiacu é um peixe de água doce, e isso seria o mínimo a saber sobre peixes, mas me disseram que infla quando estressado, como uma série de outros animais, que dão um jeitinho para aparentarem uma coisa maior do que realmente são nessas situações de conflito. Mas o mais interessante do baiacu é que, do ponto de vista antropológico, seu código genético é parecidíssimo com o do humano. Isso, amiguinho, nossa distância do baiacu é mínima. Pode-se afirmar, inclusive, que boa parte dos nossos comportamentos impensados, descontrolados e selvagens são devidos ao nosso baiacu adormecido. Algo como o que a psicanálise denominou inconsciente. Volta e meia ele aflora e... já era. Podemos cometer desde um inocente ato falo, ops, ato falho, ou atrocidades mais graves, como expormo-nos ao sol sem filtro solar ou apaixonarmo-nos pela pessoa errada etc. A vida selvagem, certamente, era pura emoção, e ainda está presente no nosso self, na forma de baiacu. Não, não podemos negar nosso baiacu, ele influencia hodiernamente nossos atos e pensamentos. Ainda precisamos de emoção, sentir nossas terminações nervosas ou algo parecido à flor da pele. Baiacu tem nervos? Bom pro baiacu, cujos únicos neurônios são o tico e o teco, como predominância, certamente, do primeiro. Nós somos civilizados, os descontentes, por culpa da imensa necessidade de vida social e de regras. Irônico, porque o baiacu, tão importante em nossa evolução e apesar da proximidade como nosso código genético, não tem nada a ver com as regras. Enfim, apesar da importância e das dificuldades causadas pelas regras, temos que reconhecer o imenso valor do nosso baiacu interior, dar atenção a ele, levar uma vida mais saudável, próxima à natureza, consumir menos farinha branca, ser menos enfezados, livrar-nos das coisas que guardamos e que já cumpriram seu papel na nossa existência (esse papo é bem de novo ano, ou nova era...). Se não, ele pode inflar para parecer maior do que é, sabe como é, baiacu é meio feminino, selvagem, imprevisível, e pode causar uma série de transtornos. Quem avisa amigo é.
(Créditos: M.M.)
enviada por A ida
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