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29/10/2003 22:34

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Experimente Ausentes.

Nunca estive em Ausentes. Desta vez, portanto, não farei um relato de viagem. Tudo o que sei sobre Ausentes me foi contado por um amigo através de uma carta. “Contado” não é a palavra certa, e logo você saberá porquê. Nem nem sempre se quer o que se escreve, assim como sempre se escreve o que se quer.
Ocorreu que, sob a carta a mim endereçada, colorida pela letra azul da caneta do amigo, havia outra, na forma de sulcos de letras incolores no papel. Antes de escrever a mim, o amigo escrevera, no mesmo bloco, a outra pessoa. Assim, o relato a respeito de Ausentes me foi revelado por meio de trabalhosa manipulação da luz de uma vela.
Os aspectos físicos de Ausentes indicam tratar-se de uma cidade curiosa. Lá, o ar não pode ser pego, apesar de ninguém sobreviver sem ele. O fogo, em Ausentes, só persiste enquanto o objeto queimado também durar, e ninguém entende esse ímpeto auto-destrutivo do fogo. Quando está nublado em Ausentes, as estrelas não podem ser experimentadas e a lua não pode ser vista. Se está nublado e a lua está na fase Nova, ela fica duplamente encoberta. A coincidência de duas circunstâncias escondedoras torna qualquer objeto duplamente oculto. Há quem diga que não é a lua a encobrir-se, mas a própria Ausentes.
Quando se caminha pelas ruas de Ausentes, acontece geralmente de a visão chegar no lugar pisado antes do que o pé. Assim também quando um balão estoura. O barulho chega antes aos ouvidos do que a imagem do balão estourado à visão. Em Ausentes, perde-se fios de cabelo sem se notar. Já os cílios perdidos são notados. Lá, uma escada de cinco degraus, se vista de cima para baixo, tem cinco degraus. Se vista de baixo para cima, também.
As características sociais de Ausentes são igualmente notáveis. Lá, nem só os altos têm altura, nem só os largos têm largura, nem só os gordos têm gordura. Mas apenas os bem-sucedidos têm sucesso e os bem-humorados têm humor. As crianças sabem porque o café quente não é servido em copos, mas não sabem porque a água fria não é servida em xícaras. Raramente formam-se filas nos estabelecimentos comerciais de Ausentes. Mas, quando ocorrem, criam-se logo duas: a das pessoas comuns e a das pessoas que não entram em fila, ou seja, a das VIP –Very Important Person.
Em Ausentes, quem tem um negócio nunca tem ócio. Nenhum habitante viu a inflação, mas a maioria sabe quando o preço do pão aumenta.
Nas escolas de Ausentes, os professores fazem a chamada no início da aula. Os alunos ausentes levam uma falta pela má-educação de não responderem ao professor.
Uma vez um habitante de Ausentes perdeu um dedo em uma máquina. A partir daí, todos os demais passaram a notar o dedo faltante do homem.
Inexistem tuberculosos em Ausentes. Mas eles aparecem nas estatísticas e são representados por um zero.
Em Ausentes, as pessoas planejam o futuro e lembram o passado no presente. Talvez isso seja um indício de que lá só exista o presente.
Em Ausentes, nem tudo o que está presente faz sentido. Por causa disso, algumas pessoas procuram por um objeto familiar perdido e, quando se dão conta, ele está no lugar de sempre. Perde-se muita coisa em Ausentes, até mesmo a hora. Até mesmo o tempo. Por outro lado, algumas coisas são sentidas apesar de não serem experimentadas. Como quando toca apenas parte de uma música e um habitante de Ausentes lembra da música por inteiro. Ou quando ele dá apenas uma mordida num pastel e descobre o seu recheio.
Às vezes, as coisas perdem a graça. Quando um habitante de Ausentes realiza um ideal, ocorre o fim deste ideal.
Muito ainda poderia falar sobre essa cidade, mas são fatos ou fenômenos menos importantes e foram esquecidos.
Além do mais, a carta sotoposta revelou não apenas algumas características de Ausentes, mas também de seu escritor, meu amigo. Descobri, além do vigor de sua escrita, que, em Ausentes, uma mulher disse que o amava, mas ele nunca comprovou se ela falava a verdade.

Créditos: I.C. e J.B.


enviada por A ida






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